JOGOS ESPECULARES E CONSTRUÇÕES IDENTITÁRIAS EM TERRAS UBALDIANAS[1]

 

Rita Olivieri-Godet - Université Paris 8

 

 

Uma parte significativa da obra de João Ubaldo Ribeiro funda-se na represen­tação literária de um espaço geográfico, a ilha de Itaparica, sujeito social de narrativas que irão integrá-la a partir de uma perspectiva dialética entre sua dimensão real e simbólica. Ao contrário da dispersão espacial – caminho escolhido por Mário de Andrade em Macunaíma para melhor reconstruir literariamente um Brasil "desregionalizado" – João Ubaldo opta pela concentração espacial, a imagem da ilha funcionando como um microcosmo. Este espaço referencial é tomado como uma imagem reduzida de uma sociedade que reivindica suas diferenças, colocadas em evidência através de um jogo de confrontos especulares com o outro. O outro, como assinala Homi Bhabha, “nunca está fora ou além de nós; ele força sua emergência dentro do discurso cultural quando achamos que estamos falando “entre nós” da maneira mais íntima e mais regional”.[2]

Propomo-nos a discutir esses jogos especulares a partir da leitura dos contos reunidos em Já podeis da pátria filhos e outras histórias (1991), de João Ubaldo Ribeiro[3], o que nos permitirá tratar de questões fundamentais sobre o processo de construção da identidade cultural brasileira, refletindo sobre as marcas simbólicas desse itinerário. Nesse volume de contos, escritos sob o período da ditadura militar no Brasil, as narrativas, aparentemente anódinas e divertidas, investem de maneira iconoclasta contra as normas – sociais, políticas, econômicas, religiosas, literárias, linguísticas – vigentes na sociedade brasileira. Sob a aparência de modelo conforme à realidade, João Ubaldo constrói um mundo que questiona a naturalidade dos valores que a regem, recorrendo à sátira, ao fantástico, ao grotesco, ao humor. A representação paródica do mundo é essencialmente fundada na expressão de um cômico popular.

A figuração identitária predominante em Já podeis da pátria filhos... opõe o itaparicano – o nativo da ilha – ao estrangeiro ou ao brasileiro “sulista”, permitindo por um lado, evocar os aspectos simbólicos que identificam o itaparicano à sua nação e por outro lado, construir uma imagem identitária pela diferença, afirmando o conteúdo particular de uma cultura autóctone, própria de sua comunidade. Jogando com as noções do regional e do nacional, tencionando ao máximo essas categorias, pela representação ambivalente da região que ora aparece como espaço autônomo, ora como parte integrante do espaço nacional, os textos expõem as relações de força que embasam o processo identitário, fazendo emergir o corpo fragmentado da nação, em contraste com a figuração discursiva uniforme das instituições hegemônicas. Desse modo desestabiliza as fronteiras, problematizando as categorias do regional e do nacional e apontando para uma ampliação dos parâmetros para se pensar ou repensar a nação.

A maioria das histórias são contadas por narradores homodiegéticos, presentes como personagens no universo espaço-temporal dos contos e que são ao mesmo tempo atores e testemunhos do que relatam. As marcas sociais desses narradores são construídas a partir de um perfil correspondente ao do homem do povo. À exceção de Patrocinando a arte e O estouro da boiada, narrados na terceira pessoa, os outros doze contos apresentam um narrador anônimo que utiliza tanto o pronome “eu” quanto o “nós” para se auto-designar. Na verdade o “eu “ tende a dissolver-se num “nós”, a voz individual cedendo lugar à voz coletiva. Evidentemente este “eu” pressupõe um destinatário com o qual o narrador estabelece um contato direto na tentativa de implicá-lo na sua proposição, assim como o “aqui” pressupõe um “lá”, um outro lugar diverso de onde o “eu” se situa. O discurso do narrador supõe igualmente uma relacão ao tempo, um “aqui-agora” que vai lhe permitir situar-se em relação ao passado e ao futuro. Temos assim o esboço de um quadro enunciativo que coloca um “nós” face aos “outros”: este esquema permite o aparecimento dos componentes identitários nos quais essa comunidade se reconhece, confrontando-a a uma alteridade.

 

Nota-se que a estratégia narrativa adotada apresenta um narrador como parte integrante da comunidade, à escuta de todos os discursos que a atravessam e que não hesita em emitir suas opiniões sobre fatos e personagens ou observações gerais sobre a sociedade e a condição humana. O pronome “nós” é frequentemente substituído por “a gente” – seu equivalente num registro mais corrente. O narrador surge assim como porta voz da comunidade, como atesta a iteração de fórmulas como todo mundo sabe, todo mundo acha, o povo diz que, etc. Portanto, é no seio do discurso social que reproduz o lugar comum que João Ubaldo interroga as bases de uma identidade cultural. Seus contos são verdadeiros espaços dialógicos capazes de dar conta do “vasto rumor das palavras e dos discursos que coexistem e interferem numa sociedade”. [4]

Esse processo de recriação da linguagem popular coloca em causa a codificação linguística que traduz uma lógica do real imposta pelas relações do poder. Isto não significa que a língua falada pelo povo, que aliás está longe de ser homogênea e engloba todo tipo de variantes dialetais, seja naturalmente capaz de romper com os esquemas de dominação social, nem que os falantes tenham consciência do potencial revolucionário desta língua. É o engajamento do escritor através de uma representação, mais estilizada que realista das linguagens sociais, fundamentada numa prática libertária e lúdica no que se refere às realizações discursivas, que é capaz de desconstruir, de expor ao ridículo o uso esclerosado da língua. Por conseguinte, é no seio da linguagem que uma herança cultural comum, histórica, política, estética, é questionada.

Quais são os principais contornos do espaço identitário fictício colocado em cena por João Ubaldo nos quatorze contos que constituem o corpus deste trabalho e que integram as narrativas de Já podeis da pátria filhos...?

Parece-nos que o ponto de partida do autor é a crítica ao etnocentrismo que comanda o olhar que dirigimos ao outro. A comunidade da ilha é apreendida como vítima de um etnocentrismo violento que se traduz pelas relações de dominação política e econômica responsáveis pela imposição de um modelo cultural. Mas trata-se de uma vítima que é capaz de reagir e de devolver o olhar crítico, expondo seus carrascos ao ridículo. Dessa forma, as relações identitárias projetam-se num jogo especular que questiona a naturalização dos valores. Mesmo se a perspectiva adotada é a das classes populares, o que inscreve o debate da identidade cultural no seio das relações de dominação, a visão ideológica não cai na armadilha do populismo social. Apesar das narrativas demonstrarem uma afinidade com as classes populares, estas não estão ao abrigo de um olhar crítico e até mesmo irônico. Nesse espaço em que todos os olhares se entrecuzam, os elementos do universo recriado são apreendidos segundo uma ótica múltipla, por intermédio da focalização narrativa.

O nativo da ilha é caracterizado pelo seu sentimento de pertencimento à uma comunidade que possui em comum uma memória, uma língua e um espaço. Contrariamente à representação do retirante nordestino, condenado à errância, o autor nos mostra uma população sedentária, fechada no seu mundo e nos seus valores. No entanto, mesmo se o nativo da ilha não é fisicamente arrancado de sua terra, ele também como o retirante, é confrontado às culturas hegemônicas, pois a ilha de Itaparica, desde o início da formação histórica da nação brasileira, é um território atravessado por culturas múltiplas.

No esquema identitário construído pelos contos, o itaparicano é descrito em função de suas relações conflituais com o estrangeiro. Num primeiro momento, o que corresponde à representação do passado histórico da ilha, ele é confrontado aos povos colonizadores, os portugueses e os holandeses. As alusões ao referencial histórico permitem colocar em cena o uso que o povo faz da história. O autor aproveita para fazer a crítica da manipulação da história, a denúncia do caráter fictício das suas referências, expondo os símbolos nos quais o homem comum do povo se reconhece:

 

Eu mesmo não suporto contar estas histórias, porque sou de Itaparica e em Itaparica o povo não aprecia que se conte este tipo de história, preferindo que se trate de temas cívicos, tais como certas porradas que alguns itaparicanos deram nuns tantos portugueses, por ocasião da luta em que nos envolvemos com os lusos, coisa de mais de 150 anos atrás e águas passadas não movem moinhos.[5]

 

A sátira, o humor, o recurso a um registro vulgar são elementos que distanciam a narração do nacionalismo cívico do discurso oficial grandiloqüente, marcado por uma visão entusiasta e patriótica que exalta os fatos e gestos do povo autóctone. O procedimento é complexo pois ele possibilita fazer a leitura crítica da ideologia patriótica, exacerbada pelas circunstâncias da época – os discursos nacionalistas dos militares no poder – e ao mesmo tempo demonstrar uma certa simpatia pela apropriação ingênua e criativa dessa ideologia por parte do povo:

 

Sabe-se que isto aqui foi invadido pelos holandeses, aliás a Bahia toda, e que nós botamos eles para fora debaixo de porrada. Aqui o que tem de heróis não cabe num livro. Finado Bambano, que não me suportava porque eu nunca soube direito o nome dos heróis todos, conhecia tudo de cor . Tivemos Maria Felipa, João das Botas etc. Tudo machíssimo, inclusive as mulheres.[6]

 

O nível de linguagem utilizado subverte a representação que as instituições oficiais reservam aos episódios históricos, particularmente àqueles que dizem respeito às lutas da independência.

Para evocar o presente, os contos reproduzem o mesmo quadro conflitual, substituindo porém as alusões aos combates heróicos por comentários sobre os fatos mais anódinos do quotidiano mas que são capazes de revelar relações de dominação muito mais sutis. João Ubaldo parte de um dado real, a presença de turistas atraídos pela paisagem paradisíaca da ilha, para construir um vasto quadro antropológico e denunciar os preconceitos das culturas hegemônicas. As relações identitárias são encenadas a partir de uma oposição entre o autóctone – designado como itaparicano, o povo daqui, o nativo – e o outro que se desdobra em duas categorias, o estrangeiro e o brasileiro do sul.

A oposição itaparicano/estrangeiro toma como alvo principal os americanos: turistas, voluntários da paz, brazilianists, todos esses são objeto do olhar irônico dos nativos. Por esse meio, João Ubaldo coloca em evidência a dominação política, econômica e cultural exercida pelos Estados Unidos sobre o Brasil. Para analisar a sociedade brasileira, o autor coloca-se no centro dos antagonismos sociais, numa perspectiva de análise que pode ser aproximada do ponto de vista desenvolvido por Darcy Ribeiro em O povo brasileiro, quando aponta a subserviência das elites brasileiras ao capital estrangeiro, acusando-as de só servir aos seus próprios interesses, ignorando as necessidades da população.[7] Para tratar as relações de dominação, João Ubaldo afasta-se do discurso sério ou panfletário para fazer da paródia, do barroquismo carnavalesco da linguagem, sua arma predileta na construção de um quadro caricatural das diferentes nacionalidades.

O esquema identitário que opõe o itaparicano ao estrangeiro permite igualmente precisar os componentes simbólicos que identificam o primeiro à sua nação. O futebol é um dos elementos mais visíveis de valorização da pátria:

 

Vitória do Brasil, ninguém envergonhou a pátria. Muita gente pergunta se, em vez de ganhar no futebol, não era melhor a gente viver bem, igual aos gringos vivem ? Isso demonstra ignorância, porque se sabe que ao gringo interessa mais mostrar que a raça deles é melhor, por isso que Hitler mandou matar todos os alemães que não ganharam nas olimpíadas, para não envergonhar a raça. Daí se vê que, ganhando no futebol, a melhor raça somos nós. 

 

Observa-se um movimento de reconhecimento e de integração a um sentimento nacional traduzido pela oposição brasileiros/gringos, termo pejorativo para designar o estrangeiro. A ironia que ataca o nacionalismo patriótico, evidenciada pelo recurso a certos procedimentos de argumentação, revela o mecanismo subjacente a todos os regimes totalitários, o de jogar com os símbolos de congregação para obter mais facilmente o controle sobre o povo, reforçando fronteiras e barreiras em relação às outras nações.

A segunda oposição trabalha a construção de uma imagem identitária pela dissociação, afirmando o conteúdo particular da cultura autóctone que também é definida por uma consciência de classe. O outro neste caso, o brasileiro do sul, originário do Rio e de São Paulo, é uma figura emblemática do centro de poder econômico do país. O outro representa a elite econômica e cultural responsável pela fratura social que opõe o Nordeste ao Sul do Brasil. Aqui um outro campo identitário é trabalhado, permitindo ao itaparicano de se reconhecer como nordestino em oposição ao sulista, identificação tornada possível graças ao sentimento que é comum a ambos de serem vítimas da exclusão:

 

Se bem que Natércio – que sempre cantou melhor do que Nelson Gonçalves e Orlando Silva os dois juntos, mas nunca apareceu na televisão do Rio de Janeiro, isto porque o nordestino é perseguido e Natércio nunca foi de puxar saco de ninguém, muito menos de carioca […] [8]

 

O texto reelabora o discurso social para melhor explicitar as referências culturais, específicas a cada comunidade, relacionadas com seus sistemas de valores. Os contatos entre as diversas culturas revela a estrutura segregacionista e sempre colonizadora da sociedade brasileira. Esta segregação deixa suas marcas no modelo hierárquico da linguagem, que erige em norma a fala da elite:

 

Essa mulher fala com um sotaque todo de artista, todo carioca, e eu aí falo carioca também, que eu sei – sabe como é, é só falar assim cantando : lê-gal, lê-gal […][9]

 

Not obstante – como dizem os americanos, que todos aqui estamos aprendendo Inglês a Língua do Futuro e quem não sabe inglês pode desistir, ou senão árabe, o que não dá futuro é morar aqui e só falar a mesma língua que os jegues e as éguas e os cachorros […][10]

 

O desprezo ao qual está condenada a língua falada por uma população mantida à margem do poder é um tema recorrente nos contos. A língua falada pelo povo é duplamente estigmatizada: primeiro como língua de um país economicamente dependente; segundo como palavra, variante social, local, sem prestígio. Contrariamente a uma representação homogênea, o que é ressaltado nessa mise en scène da identidade cultural brasileira, é seu caráter fragmentário, uma divisão interior fundamentalmente ocasionada pela fratura social que torna impossível uma articulação constitutiva unitária. O caráter estratificado da sociedade, sua estrutura de dominação em cascata em que a elite do país faz o papel do colonizador projeta a imagem do corpo fragmentado da nação:

 

Quer dizer, quanto mais a gente estiver morando no oco dos pés de pau e cagando nos matos, mais eles estão gostando. Americano é mais sabido até do que paulista. Estamos de olho neles todos.[11]

 

A leitura desses contos escritos num estilo de alegre exuberância, remete-nos paradoxalmente, à imagem identitária de um país dividido. Excetuando as armadilhas dos símbolos de reconhecimento da nação e dos discursos de legitimação, o único elemento que torna possível uma identificação com o outro é a consciência da exclusão: o elemento que divide é também o que une, como observa esse outro grande intérprete da realidade brasileira, Darcy Ribeiro.[12] Na ficção identitária de João Ubaldo, o brasileiro designa realidades diversas e contraditórias. A representação das diferenças culturais revela a estrutura hierárquica de uma sociedade em cujo corpo a pluralidade cultural inscreve-se na fratura social.

As marcas da discriminação social estão enraizadas no uso da língua, remetendo frequentemente à relação de poder que define a posição dos interlocutores. A língua do povo, sob o domínio das elites hegemônicas do país, é marcada pelo estigma de linguagem provinciana e incorreta. Para liberá-la desse estigma, a posição adotada pelo autor é a de reivindicar esta diferença, de recriar esta língua e suas singularidades através dos discursos dos narradores e dos personagens, de modo a se contrapor às imposições das elites. Sua prática literária é o testemunho de uma tomada de posição iconoclasta contra os códigos convencionais que regem uma sociedade desigual. João Ubaldo faz a escolha da ruptura violenta com as normas lingüísticas, engajando-se num processo de experimentação da linguagem no seio do a-normativo. Seus contos manifestam o caráter libertário e desabusado de um discurso que luta contra uma visão hierarquizada do mundo, desviando o bom uso da língua e da literatura.

O autor questiona a institucionalização da literatura que se manifesta através do poder de erigir obras em modelo, ou pela conformidade com os valores da ordem social, ou ainda no desprezo com que trata a cultura popular. Seus contos incorporam diversos modelos literários para interrogá-los e desmistificá-los. Sua escritura vê-se dessa forma confrontada a um vasto campo intertextual, situando-se pelo empréstimo ou pela paródia, em relação aos diversos códigos estéticos.

Essa tendência a inserir pelo amálgama ou pelo jogo de citações, textos literários legitimados pela tradição é uma constante na obra do autor. O conto “O poder da arte e da palavra”, verdadeiro pot-pourri literário, é exposto a um trabalho intenso de desvio estilístico, semântico e ideológico. Não são só os textos que são retomados , mas o intertexto cultural, a recepção crítica da obra, a penetração popular dos mais nobres representantes das literaturas universal e de língua portuguesa. O processo de dessacralização apoia-se na apropriação pelo homem comum dos textos legitimados pela tradição literária. João Ubaldo explora as possibilidades de interação entre o social e o literário questionando as relações que o povo mantém com a literatura; a imagem que o povo faz da arte e do artista; a leitura que o povo poderia fazer dos cânones literários; os códigos estéticos que regem o gosto popular. Esse questionamento motivado pela aproximação entre as culturas erudita e popular, torna-se possível nesses contos graças à figuração híbrida de um narrador que lê os textos canônicos, mas que se exprime na língua do povo. Figuração utópica de uma literatura como território identitário de todo um povo.

A construção da identidade nos contos de Já podeis da pátria filhos... faz emergir a imagem de comunidades em conflito, fechadas nas suas referências culturais, através de um jogo especular das diferenças. Mas ela projeta igualmente, pelo poder da escritura, as figurações da pluralidade cultural, a criação de um espaço aberto, híbrido, interativo, liberado dos guardiães de um modelo hierárquico da sociedade.



[1] Este texto foi inicialmente publicado, em francês, na revista do grupo de pesquisa sobre os países lusófonos da Université de la Sorbonne Nouvelle – Paris 3 (CREPAL, n° 7, 2000) com o título Stratégies narratives et identité culturelle dans les contes de João Ubaldo Ribeiro. A atual versão introduz algumas modificações sem no entanto alterar o eixo anterior da discussão.

[2] Homi BHABHA. Nation and narration.

[3] Dos dezessete contos reunidos sob o título de Já podeis da pátria filhos e outras histórias, quatorze se organizam em torno de uma unidade espacial, a ilha de Itaparica, que lhes confere igualmente uma unidade temática e estilística e constituem o corpus deste ensaio. Somente em três contos (Brincando de doutor, Pensamentos, palavras e obras e Era um dia diferente quando se matava porco ) o olhar desloca-se do sujeito social – a ilha de Itaparica na sua dimensão real e simbólica – para as reminiscências da infância do narrador.

[4] Marc ANGENOT. Analyse du discours et sociocritique des textes, p. 134.In: Claude DUCHET et Stéphane VACHON.La recherche littéraire. Objets et méthodes. Presses Universitaires de Vincennes/CCIFQ/XYZ, 1998.

[5] O jegue Boneco e o jegue Suspiro. In: João Ubaldo RIBEIRO. Já podeis da pátria filhos e outras histórias. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1991, p. 141.

[6] Vavá Paparrão contra Vanderdique Vanderlei. Op. Cit. p. 68.

[7] “O ruim aqui, e efetivo fator causal do atraso, é o modo de ordenação da sociedade, estruturada contra os interesses da população, desde sempre sangrada para servir a desígnios alheios e opostos aos seus. Não há, nunca houve, aqui um povo livre, regendo seu destino na busca de sua própria prosperidade.” Darcy Ribeiro, O povo brasileiro. Formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p. 446.

[8] A vez quando Luís Cuiúba comeu seis ou sete veranistas. Op. Cit. p. 41.

[9]Ibid., p. 49.

[10]Ibid., p. 43.

[11] O diabo que assobiaba. Op. Cit. p. 101.

[12] “O que desgarra e separa os brasileiros em componentes opostos é a estratificação de classes. Mas é ela que, do lado de baixo, unifica e articula, como brasileiros, as imensas massas predominantemente escuras, muito mais solidariamente cimentadas como tal, que enquanto negro retinto ou branco de cal, porque nenhum desses defeitos é insanável”. Op. Cit. nota 7, p. 444.